quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Isento de ênfases, blindado ao ufanismo

Uma terra só

Flávio Loureiro Chaves


No processo cultural do regionalismo, as obras de Simões Lopes Neto e Amaro Juvenal assinalaram a mais alta expressão literária do gaúcho e também o seu limite histórico, isto é, a desagregação do mito em que outros pretenderam fixar a sua saga heróica.


Por isso mesmo, sob uma perspectiva dialética, estes textos já anunciam o esgotamento do regionalismo.


A Literatura subsequente é varrida pelo sopro de novos ventos: o Ciclo do gaúcho-a-pé, de Cyro Martins, o Incidente em Antares, de Erico Verissimo, e os contos dolbiamoré, de Roberto Bittencourt Martins.


Trata-se de resultantes notáveis de um mesmo processo onde surge um dos traços mais interessantes de nossa literatura atual: a permanência da região e a ultrapassagem do regionalismo. É certo que, em determinados casos, o aproveitamento do manancial folclórico e da linguagem localista sustentaram a continuidade de uma manifestação gauchesca.


Tal não é o caso de Aldyr Garcia Schlee. Aqui o passado histórico retorna como uma força subterrânea para recolocar o espaço sul-rio-grandense e o gaúcho no núcleo da matéria abordada. No entanto, não é lícito relacioná-lo à vertente do regionalismo.


Estamos, antes, diante do que Antônio Cândido denominou super-regionalismo, assegurando a universalidade na observação da particularidade.


A ficção de Aldyr Garcia Schlee pertence aos novos caminhos que se abriram durante os anos setenta, após a renovação roseana.


Seus temas profundos, capazes de garantir a amplitude da comunicabilidade, são a concepção trágica da existência e o absurdo essencial que aciona os personagens.


Aldyr Garcia Schlee só observa o passado heróico para confrontá-lo com o presente desprovido de magia.


Nesse processo, a sua ficção simultaneamente mantém o cenário tradicional para inseri-lo numa temática já situada na fronteira da modernidade.


Entende-se, portanto, que estejamos diante e um fato literário cuja importância não pode ser desprezada – o vínculo entre a tradição de raiz gauchesca e uma problemática que pertence ao homem contemporâneo de qualquer latitude. Eis um texto que se legitima a si mesmo.





Estou certo de que o desenvolvimento ulterior da obra de Aldyr Garcia Schlee nos permitirá parafrasear em relação a ele o que Tristão de Athayde em certa ocasião afirmou de Erico Verissimo: “não haver escritor que mais honre sua região, sendo o menos regionalista e ufanista de seus filhos”.


Isento de ufanismo, Aldyr Garcia Schlee revela-se legatário de uma tradição e proponente de um estilo que a renova.


Flávio Loureiro Chaves
Imagem: O escritor, por Alexandre Schlee Gomes
Fonte:ardotempo

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